Levantou-se insegura da cama que já a acolhia, com os olhos cheios de lágrimas - ela não sabia lidar com isso -, cambaleando, tremendo de frio e de medo, daquilo que já tão bem conhecia.
O papel dele era acolhe-la quando os seus principais membros falhassem, e o dela era cair, sempre, toda a sua vida, tropeçando na mesma pedra e no mesmo otário, fazendo com que as feridas no fundo do coração fossem o principal fruto do seu percurso.
Ela sente medo, como sentira antes, quando outrora alguém decidira espetar no seu peito uma enorme farpa, com imensos e dolorosos bicos, daqueles que trazem crostas para vida, ou até para depois dela. Ele está seguro na corda bamba, dá certezas com as suas incertezas, joga à defensiva e mostra algum mau perder.
Juntos não combinam, a água e o azeite no seu estado mais puro e concreto, a dar asas a algo que cresce dentro de um só coração - o deles. As promessas de outrora foram postas de lado, agora vivem somente para alimentar os seus corpos do desejo faminto que sentem um pelo outro, como se à sua volta o mundo não existisse.
Ela está novamente a chorar, aperta o peito com força até que os pedaços se voltem a colar, um por um, acelerando o que só o tempo trás - cicatrizes. Ele está longe, começa a ficar distante da origem, e o que é deles termina desfalecido.
Ela está sem forças, culpa-se por ouvir sempre a mesma história; amanhã reerguerá o esqueleto cansado e coberto de mazelas, e ele vai sorrir-lhe ao longe, cada vez mais distante e mais bonito, como nunca o vira antes.
Ela põe-se em bicos de pés, roda como uma bailarina em pleno voo, despede-se levemente, e por fim, volta a cair. Uma e outra vez, até sempre.
Só não desistas de mim, não te percas agora.