Gosto de te escrever longas cartas, enfeitadas com palavras, cobertas com o cheiro característico do papel que sobe pelo nariz e se entranha na minha garganta, formando um nó.
Escrevo-te mesmo quando não tenho nada para te dizer, às vezes só para te falar do meu amor por ti, e para te contar ao pormenor todas as tentativas falhadas de aproximação a outros homens; descrevo-tos sempre com o toque de paixão que meto em tudo o que faço, e depois fico à espera que desse lado te roas de ciúmes ao imaginar-me como eu nunca me imaginei.
Não sei se sentes medo tantas vezes como eu, mas sei que pensas em mim, mesmo que apenas quando lês as minhas declarações de amor disfarçadas e te ris à gargalhada com os meus adjectivos disparatados à cerca da tua pessoa. Não me importo que estejas esquecido de mim durante o dia, que vagueis por outros corpos e por outros corações, porque no final tu acabas por voltar para mim, sereno e sincero como um fiel companheiro.
Lá no fundo, no meio da eternidade que nos envolve, sei que o teu amor já mais se atreveria a fugir de mim como tu fizeste. Deixas-te o teu coração cá para poderes ficar a milhões de quilómetros de distância, garantido que já mais a minha vida teria um sentido alheio aos teus passos, às noites em que me apertavas firmemente contra o peito e me percorrias a cintura da forma mais delicada que vi em ti.
E nunca me deixas outra saída se não amar-te, da forma mais intensa e egoísta que conheço, com o coração, com a alma e com o corpo, entregando-me sempre ao vazio de uma cama simplesmente porque não acredito noutro amor se não no teu, que é invisível, tendendo sempre a escapar-me entre os dedos, como os leves e finos grãos de areia que deixas-te pelo caminho.
P.S: Lamento se te encho a cabeça de palavras e o coração de amor, mas só sei viver assim.