28 de março de 2011

(quase) tudo

Começa por correr para longe de mim antes que te arranque o coração à dentada. Sinto tanta vontade de te cravar os dentes na pele até que esta ceda e o sabor do teu sangue fique exposto na minha língua, que fico em êxtase só de imaginar.
Já à muito tempo que matei o amor que sentia por ti, já não te procuro no meio dos lençóis embrulhado até às orelhas, à espera que eu despertasse para te envolver no meu colo. Matei o vírus que me atrofiava o coração e me despedaçava sempre que possível, no meio da maior multidão, arranquei-lhe as memórias que funcionavam como artérias vitais e asfixiei-o até que já nada dele restasse dentro do meu corpo.
Não é fácil, matar o amor. É como arrancar um barco preso ao cais, envolvido nas maiores e mais pesadas correntes, sempre com a maré contra o marinheiro, e os ventos a carregar de lixo tudo o que já se encontrara limpo.
O amor cria laços, dentro e fora do corpo; cobertos de alma ou de coração. Arrancá-lo do peito não é possível, ele vive nos subúrbios das mais ínfimas cavidades e sobrevive nas condições mais precárias. Matá-lo é cravar as unhas no meio da ferida e escavar até não restar mais nada, até tudo estar limpo e o barco lá à frente, tranquilo.
E até depois de morto, o amor continua vivo, tal como o maior dos vilões ou o mais valente dos heróis. Porque até o coração mais frio, possui memória. E a memória, é (quase) tudo.

P.S: A nossa primavera linda, voltou.