Estou a limpar o meu coração, aos poucos, não deixando nada por dizer, nada por fazer. Estou a varrer-te do meu caminho, a polir a tua imagem dentro da minha cabeça até que não reste nada do que foste, nada do que fomos, nada do que me tornei por tua causa.
Não faço movimentos muito bruscos, não exerço força contra o meu coração, é patético julgar que alguma vez conseguirei vencê-lo. Vou pegando em ti aos poucos, e todos os dias largo um pedaço do teu corpo pelo chão, deixando que o vento de leve de mim. Faço para te esquecer, vou deixando o meu coração dentro de outros corações, para que este não petrifique na tua ausência. Aceito os mimos e o colo de quem me quer bem, sem olhar a quem, sem pedir licença, sem me importar se estás lá ou vais voltar.
Hoje estou inteira graças à força que o mundo exerce sobre mim, ter-me-ia desfeito se não me tivessem agarrado a tempo, pois a dor torna-nos inúteis, impotentes e inconsequentes. As dores do coração não têm analgésicos compatíveis, doem até quando têm de doer, e se a sua pontada forte tiver que durar toda a vida, durará.
Não existem quaisquer truques para enganar o coração, esse sabe tudo e topa de ginjeira quando queremos a todo o custo enfiar-lhe um bom par de patins e enviá-lo para um sítio bem longe da nossa vida. O coração tem razões que a razão desconhece, e a razão não tem nenhuma razão que o coração não conheça. O mesmo acontece com a dor, é psicológica até um certo ponto, até ao dia em que nos abre uma cratera gigante no meio do peito e nos mata o coração.