Todas as noites engulo o mesmo grito desesperado, mordo os lençóis até que estes cedam, espeto as unhas na carne com toda a força possível, selo o coração e os ouvidos, e assim, aos poucos, com a dissipação do teu perfume, vais-te embora.
Levas contigo a magia que te envolve, espetas o meu coração freneticamente até derramares sobre ti todo o meu sangue, delicias-te com o sabor da vitória, até que ergues o meu corpo, incapaz, e me beijas por dentre os teus dedos, cravados no meu rosto, que soam como carícias no fim do pesadelo.
Esgotei as palavras que se dirigem a ti, eu que sempre pensei que à tua volta existia uma infinita onda de inspiração, daquelas que só existem para os grandes poetas, e que eles teimam em chamar de musas.
E tal como eles, eu já não sei falar de ti sem me tornar repetitiva, sem cansar os verbos e os adjectivos, não consigo dizer-te mais vez nenhuma que estragas-te tudo, que és um idiota, que me estrangulas-te o coração e por isso sofres agora o castigo. Mas não suporto a tua também repetida resposta, quando enches o peito de ar e me sussurras, que o meu castigo, foi ter-te amado exactamente por isso.