Escondo tudo o que te diz respeito, oculto as cartas e as fotografias, ignoro o sentido nato que tenho para te dar ouvidos e finjo que não existes, pelo menos neste mundo. És raro de mais para habitar em conjunto com tanta gente igual, e por vezes demasiado banal, fútil e insignificante para te ser concebido o direito de cá viveres.
Mudas muitas vezes de direcção e tenho uma séria dificuldade em acompanhar o teu ritmo, desajeitado e inseguro, como se pisasses o chão sempre pela primeira vez. Em mim cresce a vontade de não te estender a mão, em simultâneo com o desejo árduo de que te prendas a mim para sempre, como se me transformasses na criança insegura que tu és, como se me pegasses o vírus da indecisão e eu nunca me conseguisse decidir.
Recordo, com um misto de raiva e adrenalina, todos os trilhos por nós traçados, as vezes em que tropeçamos na mesma pedra e isso nos aproximou, como dois ímanes que se tentam colar pelas partes opostas, duas porções de água e azeite na tentativa inútil de se fundirem numa única substância.
Nunca coincidimos, vivemos em pólos tão opostos que só tenho notícias tuas quando a saudade me aperta o peito com força e o nó na garganta me solta as lágrimas, derramando-as para que eu não sucumba. E tu também precisas de mim, porque eu te dou colo quando tu queres fugir, porque na tua memória só cabem imagens nossas e das vezes em que só eu não te deixei sozinho, e porque eu estou para ti tal como tu estarás para mim, e isso tu não sabes controlar.
Sei que tal facto de revolta, queres - não tanto como eu - apagar-me de ti, esquecer o meu cheiro e os meus tiques, assim como o formato da minha letra nas cartas de mil páginas, o som da música que nunca nos largou, a forma como eu cuidava de ti e das tuas coisas, mas não consegues. Sentes-te incapaz porque não consegues, e eu sinto-me incapacitada porque consigo, mas não quero.
P.S: Não te esqueças de mim.